Dinheiro embaixo do colchão – por Alex Ricciardi

Dinheiro embaixo do colchão

Forbes Brasil – Jul 2014

“POR QUE RAZÃO vários políticos – além de profissionais liberais e empresários -frequentemente informam em suas declarações de imposto de renda a posse de grande quantidade de dinheiro em espécie em sua residência, escritório ou comitê eleitoral?”

Quatro especialistas respondem à questão.

BARRY WOLFE:

“Hoje em dia, quase todas as transações normais são realizadas na economia oficial. Se há grande quantia de ‘cash’ na casa de alguém, pode-se levantar possibilidades das mais diversas, dependendo de quem…

 

Dinheiro embaixo do colchão

Forbes Brasil

Impressiona a quantidade de parlamentares brasileiros que declaram possuir pequenas fortunas guardadas em casa

POR ALEX RICCIARDI

“POR QUE RAZÃO vários políticos – além de profissionais liberais e empresários -frequentemente informam em suas declarações de imposto de renda a posse de grande quantidade de dinheiro em espécie em sua residência, escritório ou comitê eleitoral?”

Boa pergunta; checar o IR de, por exemplo, alguns de nossos representantes em Brasília causa espanto: há casos de dezenas de milhares de reais (e até valores maiores) parados em casa, sem render um tostão e sob risco de atrair assaltantes. Quatro especialistas respondem à questão.

BARRY WOLFE:

Advogado pela Edinburgh University. Como diretor da Wolfe Associates Anti-Corruption Advisers, comandou investigações de crimes no mercado corporativo e de apoio a políticas de compliance

“Hoje em dia, quase todas as transações normais são realizadas na economia oficial. Se há grande quantia de ‘cash’ na casa de alguém, pode-se levantar possibilidades das mais diversas, dependendo de quem é a pessoa. Generalizar tem seus riscos. Mas a resposta à questão da FORBES Brasil exige certa generalização. No caso de um empresário ou profissional liberal, existe chance de que se trate de caixa 2 – e nem é descabido supor propina. Quando se fala de políticos, há a presunção de doação sem fonte revelada – o que já é estranho por si – ou de corrupção. Por que se optaria por declarar os valores?

Talvez porque as leis contra lavagem de dinheiro e terrorismo são cada vez mais rígidas,dificultando abrir contas no exterior. Além disso,nos últimos anos houve repressão forte aos doleiros brasileiros. Anda difícil mandar fundos ao exterior ou repatriá-los por vias paralelas. Quem sabe por essa razão mais simples declarar a soma e pagar impostos, minimizando riscos com o BC e a Receita. Em decorrência pode ser questionada a origem do dinheiro, mas ao menos no campo político muita coisa é negociável, inclusive questões embaraçosas.Quanto à inquietante pergunta sobre por que manter o valor fora do banco, cabe mais uma suspeita generalizante: não seria porque o destino ‘ideal’ do montante seja indeclarável?”.