
O sequestro pode ser um negócio. Pode ser uma tática em guerras entre gangues criminosas rivais. Pode ser usado por quadrilhas de tráfico de pessoas para extorquir mais dinheiro das famílias das vítimas. Em disputas de divórcio transnacional, uma das partes pode sequestrar o filho e levá-lo para o país onde reside. Traficantes de pessoas sequestram vítimas para exploração sexual ou trabalho escravo. Por fim, o sequestro pode ser uma arma política usada por terroristas.
Neste artigo, examinaremos as diferenças entre dois tipos mais conhecidos de sequestro: o sequestro comercial e o sequestro político.
Essas diferenças tornaram-se mais evidentes desde os sequestros perpetrados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023.
Tanto o sequestro comercial quanto o político são formas de extorsão.
Extorsão é o ato de obter algo, geralmente dinheiro ou bens de valor, por meio de ameaças ou uso de força. No caso do sequestro, essa coerção envolve a privação de liberdade de uma pessoa.
Desde a década de 1990, o sequestro comercial se espalhou pela América
Latina, do México ao Brasil. No Brasil, nos anos 90, o sequestro era uma atividade subsidiária de facções de tráfico de drogas, alimentada pela indústria de seguros, que oferecia apólices de sequestro e resgate (kidnap and ransom insurance) a famílias ricas e a empresas que enviavam executivos para ambientes hostis.
Esse seguro é sigiloso e ilegal, sendo contratado no exterior. O sigilo é essencial para que os sequestradores não saibam quem possui cobertura, evitando que escolham diretamente vítimas seguradas.
Num mundo cada vez mais marcado pela violência, polarização e isolacionismo crescente, entender as diferenças entre esses dois tipos de sequestro é fundamental para interpretar as dinâmicas de risco e segurança da atualidade.
MOTIVAÇÃO
O sequestro político é movido por objetivos políticos ou ideológicos — pressionar governos, obter a libertação de prisioneiros, ganhar visibilidade na mídia ou influenciar políticas públicas. Já o sequestro comercial tem motivação predominantemente financeira, visando o pagamento de resgates. No sequestro político, o dinheiro pode até estar envolvido, mas raramente é o objetivo principal; no comercial, é o centro da operação.
ALVOS
No sequestro político, os alvos geralmente são figuras políticas de alto escalão, diplomatas, jornalistas, trabalhadores humanitários ou pessoas com valor simbólico para uma causa. No sequestro comercial, qualquer indivíduo percebido como tendo acesso a recursos financeiros pode ser alvo — empresários, turistas ou familiares de pessoas ricas. O critério de seleção no sequestro comercial é frequentemente baseado na capacidade percebida de pagar resgate, enquanto no político é o potencial de gerar impacto estratégico.
DINÂMICA DE NEGOCIAÇÃO
No sequestro político, as exigências podem ser não monetárias, como troca de prisioneiros, concessões políticas ou mudanças de políticas públicas. As negociações tendem a ser complexas e prolongadas, envolvendo governos, organismos internacionais e, às vezes, mediação de terceiros neutros. No sequestro comercial, as demandas são financeiras, com foco na negociação do valor do resgate, na prova de vida e na logística de pagamento.
DURAÇÃO
Sequestros políticos podem durar meses ou anos, especialmente quando o cativeiro é usado como instrumento de pressão contínua. No sequestro comercial, o tempo de duração é geralmente menor, com resolução em semanas ou meses, uma vez acordado o pagamento. Entretanto, atrasos nas negociações ou falta de confiança entre as partes podem prolongar o caso.
RISCO PARA A VÍTIMA
No sequestro político, o risco pode aumentar se a vítima perder valor estratégico ou se os sequestradores tiverem uma ideologia que tolere ou incentive a violência. No sequestro comercial, a vítima costuma ser mantida viva como 'ativo' até o pagamento do resgate; contudo, o risco cresce significativamente caso as negociações emperrem ou se houver tentativas de resgate forçado.
ENVOLVIMENTO DAS AUTORIDADES
O sequestro político envolve fortemente agências de segurança nacional, canais diplomáticos e, em alguns casos, forças militares. O sequestro comercial é frequentemente tratado por polícias locais, empresas privadas especializadas em resposta a crises e seguradoras de riscos de sequestro (Kidnap & Ransom Insurance). O envolvimento estatal pode ser limitado no sequestro comercial para evitar elevar o valor do resgate ou aumentar a visibilidade do caso.
ESTRATÉGIA DE MÍDIA
No sequestro político, os sequestradores frequentemente buscam publicidade para amplificar sua causa, tornando a mídia parte integrante da estratégia. Já no sequestro comercial, a exposição midiática é geralmente evitada, pois pode complicar as negociações e levar ao aumento das exigências de resgate. Em ambos os casos, a gestão de informações é crucial para proteger a vítima e facilitar a resolução do caso.
NOTA FINAL
No Brasil, o sequestro comercial praticamente deixou de ser utilizado como atividade subsidiária relevante do crime organizado. A razão é simples: preguiça. Organizar um sequestro exige muito trabalho, planejamento e logística: identificar potenciais vítimas, realizar vigilância para preparar a ação, efetuar o sequestro, transportar a vítima para o cativeiro, mantê-la sob custódia, negociar o pagamento do resgate, coordenar a entrega do dinheiro e, finalmente, liberar a vítima. Hoje em dia, há maneiras mais fáceis para facções criminosas obterem lucro, como, por exemplo, com o jogo on-line e a crescente infiltração do crime organizado na economia formal.
Por outro lado, o sequestro político tornou-se uma força determinante na fragmentação da ordem mundial.
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